As Troianas – Vozes da Guerra

A peça é resultado de uma entrega e dedicação pelo fazer teatral digna e vibrante. Continue lendo

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por Denis Antunes em 21 de julho de 2009 às 23:13.

Com direção de Zé Henrique de Paula, montagem de As Troianas – Vozes da Guerra, de Eurípedes, suprime fala das personagens e constrói paralelo contundente entre a Guerra de Tróia e a Segunda Guerra Mundial.

Levantando questionamentos primordiais expostos com veemência e sem pudor, a composição de Zé Henrique aborda e transcende com visceralidade a queda da dignidade humana. Privação de direitos, medo, dor e esperança são algumas das reflexões propositalmente sucumbidas de guiar o olhar do público a violência gratuita, a arbitrariedade da guerra e de todo vazio deixado por ela.

Ao término da batalha – travada entre Tróia e Esparta devido ao amor de seus governantes pela mesma mulher, Tróia, a cidade terrivelmente derrotada, foi aniquilada e, todos os homens, sem exceção, mortos. Enquanto que, suas mulheres, aprisionadas e escravizadas.

A partir do relato dessas personagens, Eurípides conseguiu identificar uma visão estritamente feminina: Hécuba, a rainha, é a protetora, a mais velha. A profetisa Cassandra, sua filha, tem delírios sobre os rumos do conflito. Andrômaca esconde seu filho, Astíanax, para que ele não seja assassinado pelos soldados. Helena, causadora central do conflito, disfarça-se de troiana para não ser descoberta por Menelau, seu marido, rei de Esparta. Apesar de terem histórias diferentes, elas estão juntas por um único motivo: a sobrevivência.

Diante de tal contexto, As Troianas de Zé Henrique usufrui a temática grega como pano de fundo a análises reflexivas e intensas a respeito das ações e reações existentes num campo de batalha. O espetáculo corajosamente universaliza histórias. A definição ambiental da peça e a proposta como um todo cria uma espécie de ligação umbilical entre gregos e alemães, troianos e judeus. A concepção é brilhantemente composta por um novo e diferente olhar aos refugiados da guerra, ainda que, o sentimento e a razão de ser, sejam os mesmos.

A montagem apresenta uma estética inovadora. Nenhumas das mulheres da peça, com exceção de Helena, possuem fala. Todo o sentido do texto foi gradativamente sendo substituído por canções e ações físicas.

Como resultado, as personagens femininas perante um estado de extrema submissão, não falam, somente cantam, afirmando, acima de tudo, sua identidade como povo. Num único momento de diálogo, Atena e Posseidon discutem o destino dos gregos e troianos, um prólogo apresentado ao público através de uma projeção, como um filme de época.

A cenografia, figurinos e objetos de cena são minuciosamente combinados a uma fiel ambientação à realidade.

Fulminante são os atores em cena, onde a força, a simplicidade e a veracidade cênica imposta são amplamente sentidas.

Depois de Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues e Cândida de Bernard Shaw, a última também em cartaz em São Paulo, Zé Henrique se constitui pela releitura e modificação contemporânea coerente dos grandes clássicos universais do teatro.

Texto: Livremente adaptado de As Troianas de Eurípedes
Direção: Zé Henrique de Paula
Direção Musical: Fernanda Maia

Elenco: Inês Aranha, Norma Gabriel, Kelly Klein, Ci Teixeira, João Pedro de Almeida Teixeira, Alexandre Meirelles, Fábio Redkowicz, Léo Bertero, André Dallan, Bibi Piragibe, Claudia Miranda, Diana Troper, Karin Ogazon, Marcella Piccin e Patrícia Vieira.

Quando: Quinta a sábado às 21h / Domingo às 19h
Onde: Instituto Cultural Capobianco – R: Álvaro de Carvalho, 97 / 103 – Centro – SP. Tel. (11) 3255 8065
Quanto: R$ 30
Duração: 70 minutos
Classificação: 16 anos
Estréia: 16 de julho até 16 de agosto

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