O preconceito me fez ir mais longe

O preconceito me fez ir mais longe

Obrigado por me discriminarem. Vocês me transformaram em um vencedor.

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por Antonio Marcello em 14 de agosto de 2009 às 22:14.

Aos 9 anos de idade eu já ouvia “viadinho”, “bichinha”. Pra mim, não tinha relação alguma com orientação sexual. Eu era tão ingênuo que não imaginava o que ser gay significava; tinha a visão educada pela televisão: gays são aqueles que usam plumas e maquiagem. Por isso eu não entendia por que me chamavam disso.

Com 11 anos decidi acompanhar minha mãe em cultos evangélicos. Eu só assistia a um canal de televisão, usava um cordão no braço que me identificava como participante do Grupo Jovem da Igreja, onde gays e lésbicas eram sempre mencionados como pessoas possuídas pelo demônio. E a confusão continuava na minha cabeça.

Foi nessa época também que abandonei o colégio por 1 ano. Eu não suportava mais apanhar, ser xingado, sem nem saber o motivo. Todos os dias eu chorava escondido no banheiro e por várias vezes ficava andando por horas para fingir que tinha ido na escola. Não aguentei. Minha mãe chegou a ir na escola, cogitando até um abuso sexual.

Eu era diferente dos outros meninos. Não me interessava por revistas de mulheres nuas e nem olhava para outras meninas. Eu achava que era por causa da minha idade e que daqui a pouco ia ser mulher pra cá, mulher pra lá.

Isso nunca aconteceu e eu continuei apanhando na rua onde morava, cuspiam em mim, me xingavam sem parar. Eu era diferente, mas acreditava que me chamavam de “viadinho” pois eu só morava com mulheres.

Com 13 anos finalmente descobri o que significava ser gay mas não tinha consciência que eu era – mesmo após ter beijado outro menino. Tudo era muito precoce e era muita informação ao mesmo tempo. Eu já não ia mais na igreja, pois até do Grupo Jovem eu fui excluído. Decidi me isolar e fui tomado por uma depressão.

Eu não tinha amigos, tinha medo de falar o que eu sentia mas algo sempre me estimulou a nunca deixar de ser quem eu era – embora eu nem soubesse ao certo. Mergulhei em livros e decidi aprender além do que a escola e a família ensinavam. Eu queria ser excepcional no que eu escolhesse fazer, pois imaginava que só assim eu seria respeitado por quem eu sou. Aos poucos comecei a me fortalecer.

Dos 16 anos em diante muita coisa mudou. Misturado aos problemas familiares que me obrigaram a amadurecer mais rápido do que o normal, eu comecei a trilhar um caminho de auto-aceitação. Não frequentava baladas gays, nem bares e encontrei o conforto em diversos amigos virtuais que mantenho até hoje.

Eu tinha consciência de que eu não poderia ter uma vida escondida, virtual e  jamais suportaria ser um personagem heterossexual. Muito pelo contrário. Eu sabia que era gay e queria mostrar às pessoas que elas estão erradas, que eu sou normal e igual a elas, sem a pretensão de ser um militante dos direitos LGBT.

Aos poucos comecei a falar com amigos, colegas de escola. No meu primeiro emprego, aos 17 anos, todos sabiam sobre a minha sexualidade. Entrei em uma das melhores faculdades do Brasil e todos na sala sabiam que eu era gay, o que de repente virou um atrativo. Ao invés de eu ser humilhado como na época da escola, as pessoas se aproximavam de mim com curiosidade. Eu, com receio, tinha o hábito de afastá-las mas não durou muito tempo.

Minha família, em especial minha mãe, foi a última a saber. A princípio ela reprovou, ficamos sem nos falar. Em menos de 24h ela me chamou pra conversar, pediu desculpas, me abraçou e disse: “Fico feliz em saber pois agora vou poder participar da sua vida”. Percebi que, finalmente, eu não precisava me esconder.

Hoje todos os meus amigos, meus ex-colegas de trabalho, minha família e todos que fazem parte do meu convívio sabem que sou gay e me respeitam. Namoro há quase 8 anos e meu namorado também é aceito por todos.

Cresci em um ambiente religioso, de repressão, de machismo. Ao contrário do que fui educado a vida toda, eu não me sinto diferente por ser gay. Eu me sinto normal pois sou normal. Hoje, consegui mudar a opinião das pessoas. Piadas sobre homossexuais são proibidas dentro da minha casa e até minha irmã de 10 anos já sabe que tenho um namorado.

Eu poderia ter me escondido, cedido a toda pressão e provavelmente hoje eu seria um depressivo, iludindo alguma mulher e seguindo os padrões estabelecidos pelas pessoas ao meu redor em um teatro sem fim.

A única escolha que fiz em minha vida foi ser feliz como sou. Todo o preconceito que sofri me estimulou a ir mais longe, a lutar, a me aceitar ainda mais e mostrar às pessoas ao meu redor que eu sou tão bom quanto elas e que, no fundo, a diferença está na cabeça de cada um.

Hoje eu gostaria de encontrar todos que me discriminaram, me humilharam. Não por vingança, mas porque gostaria de agradecê-los. Todo o preconceito e humilhação me fez ir mais longe, me transformou em um homem com orgulho do que sou e muito mais forte do que qualquer um deles conseguiria ser. Eu queria olhar no olho de cada um, com a cabeça erguida e dizer: Obrigado, vocês me transformaram em um vencedor.

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  1. Paulo disse:

    “Eu queria ser excepcional no que eu escolhesse fazer, pois imaginava que só assim eu seria respeitado por quem eu sou. ” Caramba, que frase impactante! Eu me vi nela. Parabéns, o texto ficou lindo e tenho certeza que a grande maioria dos gays passa por tudo o que você mencionou ter vivido. Triste, mas felizmente pode ter um final feliz.

  2. Raí Pereira disse:

    Quem não passou por situações de conflito na adolescência e na infância pode se sentir abençoado. Ao ler esse texto , vieram a minha mente cenas que até algum tempo, eu daria tudo para apagar. Mas lendo algo assim, tenho que agradecer mesmo,os anos de repressão, a vergonha dos amigos, as zombarias na escola…Hoje, estou mais presente que nunca. E uso isso da melhor forma possível. Gay e cidadão..cada vez mais feliz!
    Parabéns pelo texto rapaz!!!!!!!!

  3. Ainda tocado pela sua linda e jovem história de Vida. Como toda história é formada por dúvidas, tristezas, amarguras, mas você já está colhendo os frutos da sua decisão, a sua felicidade, a sua integridade. Emotivado, deixo aqui meus parabéns. Quisera ter tido a sua coragem na minha juventude, a minha história poderia ter sido diferente… poderia, mas não posso arrepender-me, afinal, o Eu de hoje é a conseqüência de todos os meus atos passados… quem sabe, logo, logo, conte ela também.

  4. Marina Nunes disse:

    Pessoas assim como vc e eu ,digo determinadas é que merecem vencer mesmo…me sinto orgulhosa de existirem poucos assim,se possível leia meu blog…parabés pelo oq tu és

  5. Parabéns pelo texto querido! Sou mãe de um rapaz gay de 19 anos, que é o meu orgulho. Força sempre!
    Achei seu texto pois sigo o xicaum no twitter.

    Um beijo carinhoso.

  6. Gabriel disse:

    Só nós, homossexuais, sabemos o que é descriminação, o preconceito racial existe sim, mas pelo meu ver nem se compara com o que passamos. Parabéns pelo belo texto!

  7. Fernando Sobrinho disse:

    Lindo texto, meu caro amigo. Sua trajetória de vida é inspiradora. Queria eu ter tido a coragem e a inteligência que você demonstrou e ainda demonstra, pena que elas me faltam na maioria das vezes.

    Você sabe que, mesmo eu o conhecendo apenas virtualmente, o admiro muito. É um exemplo para mim e um amigo muito querido.

    Desejo-lhe o melhor. Que Deus o abençoe hoje e sempre !

  8. Ju C. disse:

    Grande história de vida, exemplo de que nunca devemos baixar a cabeça pra qualquer pessoa, muito menos deixar que comentários de gente ignorante afetem nosso modo de viver a vida!
    Parabéns pelo texto!

  9. E aos poucos a gente vai mostrando que estamos em todos os lugares, nem mais, nem menos, mas do nosso jeitinho particular. Bom ler uma história com esse reconhecimento. Mais: esse tipo de história nos encoraja a brigar para que cada história triste tenha a sua tentativa de final feliz, de aceitação, de um mundo melhor. Abração

  10. introspective disse:

    Bem bacana o texto. Todos nós temos nossas histórias pessoais de descoberta e aceitação, algumas mais sofridas e outras mais espontâneas. Mas em comum, sempre o sentimento de plenitude quando finalmente descobrimos quem somos e assumimos isso para nós mesmos. Hoje, com internet e tal, eu imaginava que esse processo seria mais fácil do que nos anos 90, quando eu troquei a esfiha pelo kibe. Mas vi que não é bem assim. Essa foi uma das razões pelas quais resolvi abrir o 30ideias (30ideias.blogspot.com) falando sobre autoestima e aceitação. E recebi uns feedbacks muito legais. Mas não vim falar do meu projeto e sim do seu texto: bonito, sensível, encorajador. Parabéns!

  11. Kelia disse:

    Estou vivendo um problema assim…com o meu ex marido.Nos separamos a pouco tempo por que descobri que ele é gay.Mandei seu texto para ele,pois já me sinto bem melhor por obter respostas que antes eu naum tinha…ele sofre ainda,queria vê-lo bem pois acredito que o melhor caminho é a auto-aceitação.Tenho certeza que seu exemplo de vida ir

  12. Kelia disse:

    Estou vivendo um problema assim…com o meu ex marido.Nos separamos a pouco tempo por que descobri que ele é gay.Mandei seu texto para ele,pois já me sinto bem melhor por obter respostas que antes eu naum tinha…ele sofre ainda,queria vê-lo bem pois acredito que o melhor caminho é a auto-aceitação.Tenho certeza que seu exemplo de vida irá ajudá-lo.Muita paz no seu coração.

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Um trabalho incrível tem sido feito para acabar com a homofobia nos esportes. Essa é uma parte de mim que amo. Gosto de ser conhecido como gay. Eu enxergo como algo positivo ser conhecido como tal.

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