O traiçoeiro universo dos sites de encontros

A difícil tarefa de entender quem está do outro lado. Continue lendo

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por Antonio Marcello em 19 de setembro de 2009 às 22:25. Última alteração em 20 de setembro de 2009 às 03:25.

Há oito anos fiz meu primeiro perfil em um site de encontros. Não tinha fotos, nem descrição física e nada que revelasse como eu era. Preferi fazer um perfil falando sobre mim, sobre quem eu era. Inacreditavelmente foi através desse perfil que conheci meu namorado e estamos juntos há oito anos.

Como queria fazer uma matéria sobre sites de encontros, criei meu perfil em dois destinados a gays e levei um susto. Li mais de 300 perfis e posso dizer que os sites de encontros se transformaram em um grande espaço onde quase nada faz sentido.

Perfis além de contraditórios
É berrante a quantidade de perfis com fotos de partes íntimas dizendo “não estou afim de sexo, quero algo sério”. Fiquei confuso. Se você não quer sexo, porque ressalta as partes do seu corpo que são feitas, entre outras coisas, para o sexo?

Também não entendi porque os perfis que dizem desempenhar determinados papéis, mostram fotos da parte oposta do corpo.

No meio de toda essa confusão, o que realmente me chamou atenção foram os perfis que procuram “apenas amigos”. No meu conceito provavelmente ingênuo, amizade significa um relacionamento entre pessoas que têm afinidades, interesses em comum e alimentam um sentimento recíproco. Decidi ir além e pesquisar no dicionário para saber a definição de amizade:

1. Sentimento de amigo; afeto que liga as pessoas. 2 Reciprocidade de afeto. 3 Benevolência

E não é que eu não estou tão enganado assim? Sem dúvida que amizade nos sites de encontros tem um significado diferenciado já que a absurda maioria procura amigos que sejam “bonitos e malhados”. A questão estética, na minha novamente ingênua opinião, está associada à atração física, que é importante quando o objetivo é ficar/namorar/transar – coisas que não têm nada a ver com amizade.

Na selva virtual dos “machos” não tem espaço para “bichinhas”
Aparentemente esses sites de encontros servem como um ótimo esconderijo para os “machos”, “discretos” e “brothers” de plantão. Eles não frequentam o meio gay, querem namorar “machos” como eles, não gostam de “bichinhas”, usam gírias de macho, falam quem tem voz grossa e que se vestem como homem.

Soa como uma enorme hipocrisia beirando a homofobia de gay contra gay. Talvez seja exagero meu mas confesso que fiquei irritado, intrigado e curioso. Como será o beijo entre machos? Será que tem carinho entre os machos ou isso é coisa das “bichinhas” que eles reprovam? Se alguém se arriscar em um encontro de machos, peço a gentileza que passe aqui para me ajudar a esclarecer todas essas dúvidas.

O desafio para os “fora de forma”
Gosto é gosto e não se discute, eu sei. Claro que para ficar/namorar/transar precisa existir atração física e todos buscam no outro características próximas às suas preferências, o que é totalmente respeitável.

Por outro lado, se pararmos pra pensar na questão do namoro, todo mundo sabe que características físicas não têm nada a ver com cumplicidade, confiança, intimidade e outros fatores importantes para construir um relacionamento sério.

Fiquei pensando quantas pessoas são descartadas por fugirem de exigências pré-estabelecidas por alguns perfis e percebi que uma em especial é rejeitada pela maioria: os “fora de forma”.

Reza a lenda que a cada novo namoro ou novo emprego as pessoas engordam 5kg. Então, se você for magro/normal/malhado e começar um namoro com um perfil que tenha essas exigências, cuidado para não engordar os tais 5kgs e mais cuidado ainda se você mudar de emprego. Se a lenda for verdadeira, você pode acabar com 10kgs e solteiro mais uma vez.

Ao que tudo indica, as exigências são puramente estéticas e superficiais.

Balanço geral (e me desculpe todo o banho de água fria)
A minoria mostra fotos de rosto, fala seus defeitos, revela suas preferências de forma neutra e parece realmente sincera. Os demais parecem entrar em um drive-thru onde corpos são consumidos e escolhidos como se estivessem em um cardápio e descartados na mesma rapidez que fast food.

Um universo de personagens que afronta à auto-estima dos que fogem aos padrões de beleza estabelecidos, deixados de lado pelos deslumbrados com a possibilidade de encontrar o príncipe encantado sem massa cefálica que se transforma em abóbora a cada palavra ou frase escrita.

Torço para que eu esteja errado e que tenha tido apenas uma má impressão mas, por enquanto, só posso desejar boa sorte aos que encontram nesses sites a única oportunidade de relacionamento.

Hoje, se eu estivesse solteiro não conseguiria procurar nada sério em sites de encontros pois compreender como funciona o jogo dos perfis virtuais e toda a plasticidade escondida por trás deste universo parece uma tarefa mais difícil do que acertar os números da Mega-Sena.

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