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Top ou Não Top

Top ou Não Top

por Thiago Carvalho-Fernandes | 29 de janeiro de 2010 às 07:53

Uma reflexão sobre os nichos do universo gay.

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Deparo-me com uma questão que, para alguns pode ser válida, para outros pode ser ínfima. Esta questão me foi levantada por um amigo virtual, uma pessoa que conheci através de uma das redes sociais das quais participo, e achei pertinente por ser algo que eu mesmo já tinha observado acontecer, e ser considerado mais um ‘dogma’ do nosso universo gay: os nichos.

Se levarmos em consideração os nichos, de certa maneira todos nós pertencemos a algum deles, mas aí é que surgem as diferenças: algumas pessoas são ‘classificadas’ conforme seu tipo físico, atitudes e gostos dentro de um nicho, mesmo que contra sua vontade. O outro lado da moeda é que algumas pessoas sentem esta identificação (seja por todos, um ou vários dos motivos citados acima) e voluntariamente participam e se engajam nestas comunidades.

O universo gay é vasto, e nem mesmo nós o compreendemos completamente ainda; imagine então quem se encontra de fora. O universo heterossexual é composto de dois estereótipos: o homem machão e a mulher feminina, conceitos que foram desenvolvidos pelos próprios héteros, fazendo parte do folclore e identificação geral da sociedade, estando presentes em filmes, propagandas, costumes e ‘códigos de conduta’ que nunca são escritos, mas sempre sabidos desde que nascemos.

Mas este é um problema deles”, você pode muito bem indicar. Exato, e concordo com você, mas isto se reflete no nosso universo. Os do ‘outro lado’ nos deram nosso primeiro estereótipo: a ‘bichinha’. A ‘bichinha’ é aquele gay que todos conhecemos e é odiado por muitos, porque é fruto de grandes traumas por parte dos homossexuais, assumidos ou não assumidos. Quem de nós gosta de ser chamado de ‘bicha’, ‘veado’, ‘mulherzinha’? Por sermos ‘diferentes’, resolvemos que justamente devido a nosso não-conformismo, não viveríamos a conduta que os heterossexuais nos deram; iniciou-se uma busca por nossa identidade, e aos poucos, os nossos próprios estereótipos foram criados. Por nós mesmos.

Ok, mas aí chegamos ao ponto em que identifico a questão que me move a escrever este texto: se nossos estereótipos iniciaram e identificaram nossas subculturas, porque seria isso um problema? O problema não é exatamente isso, mas sim o fato destas se dividirem em novos nichos e subculturas, não por identificação com tal objeto ou tal maneira de pensar, e sim, por exclusão, como que a separar o ‘joio do trigo’.

Vamos ser sinceros: quem aqui gosta de “gente bonita”? Todos nós, acredito. E quem quer fazer parte do grupo dos “bonitos”, “VIP’s”, e etc.? Creio que todos nós, também. A artista norte-americana Laurie Anderson identificou este questionamento em um de seus trabalhos no qual diz que “o problema entre o zero e o um é que todos querem ser o número um, portanto ninguém deseja ser o zero”. E nos perguntamos: e o que se faz com espaço entre eles? E todos nós que não nos encaixamos em nenhuma das opções?

O universo gay é um espaço hedonista, voltado ao prazer, ao culto do corpo e da aparência. Você pode protestar, mas sabemos que é assim que funciona. Nos sites de relacionamento, na balada, na paquera dos barzinhos, todos querem ser estrelas, estar entre os melhores. Este amigo virtual me comentou sobre algo chamado “top bears” (ursos, subcultura gay que compreende homens gordos, peludos, de porte físico grande, etc.)’, ou seja, os “bears” mais bonitos, os quais supostamente seriam mais charmosos e interessantes que os outros. Seja na visão deles mesmos, ou o que é mais alarmante ainda: na visão de todos os que estão de fora!

Temos então mais uma cisão, por mais uma vez: Sabemos quem supostamente são os ‘tops’, mas não sabemos quem são os que não fazem parte deste grupo (e será que nos importamos?). E estes que não o são ajudam a alimentar esta cultura da idealização, admirando e querendo estar entre estes, buscando sua própria validação. Nossos egos sempre vão desejar reconhecimento, saibamos disso; mas o que me vem à mente é: será que, para nos validarmos como indivíduos, precisamos ser validados pelos outros, ou ainda… Inflar o ego dos outros, elegendo ícones disto ou daquilo?

Afinal, quem deve ser o “número um” do meu grupo de amigos, dos meus relacionamentos, da minha vida? Será que nos forçamos a pensar que a resposta para essa pergunta (a qual deveria ser “eu”) possa ser menos importante que a idealização de estranhos e seus estilos de vida? Já parou para pensar que essas pessoas que elegemos como representantes daquilo que gostaríamos de ser ou realizar podem nem fazer idéia de que fazem parte desta fantasia, e, portanto estaríamos projetando neles… o que deveríamos fazer com nossas vidas?

Por isso, tomo a seguinte decisão: Não importa quantos amigos eu tenha no Facebook/Orkut, e quão legal a vida deles possa me parecer ser, ou quão bonitos eles sejam na foto do seu perfil online, interessantes e modernos, a única pessoa que será ‘top’ na minha vida sou eu mesmo. Por que você também não tenta fazer igual?

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comentários /comente

  1. FOXX disse:

    ora, vivemos dentro de uma cultura capitalista e yuppie que vc tem que provar q é o melhor, até nestes casos…

  2. Milton disse:

    Olá, parabéns pelo site e pela iniciativa! Sobre o assunto do texto, que li com muita atenção, acredito que toda a chamada ‘cultura gay’ é uma ‘cultura’ em torno do consumo e da vaidade, e a sua subdivisão em nichos atende mais à uma lógica do mercado, que precisa dividir e classificar para poder vender melhor. Estas ‘identidades’ são frágeis e superficiais, calcadas apenas na aparência e numa repetição dos clichés e esteriótipos de nossa época. Aliás, a própria divisão das ditas ’sexualidades’ é uma invenção de nossa época, sendo um dos aspectos da sociedade de controle. Uma dica: sejam vocês mesmos.

  3. Fernando Sobrinho disse:

    Eu sempre me sinto rejeitado por não me adaptar aos ideais top. Não bastasse a inadaptação aos ideais héteros, ainda sofro por estar fora dos padrões gays considerados como “tops”.

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