Para ler ouvindo ‘Esquadros’

O resto é ouro de tolo, já dizia o professor. Continue lendo

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por Marco Plá em 03 de agosto de 2012 às 19:33.

No entanto e apesar de tudo, penso que sou livre. Arrebento as palavras quando estou pensando em dizer o que sinto e esta tentativa é quase sempre desespero.

Sou muito sensível às gentilezas. Isso me deixa completamente fragilizado. Não percebia o quanto era preso a um gesto de atenção, um olhar demorado, uma manifestação inesperada de delicadeza. Não é a toa que temos muita comida estocada e mãos vazias buscando restos em sacolas plásticas inutilizáveis.

Acordo e durmo com a certeza de que meu corpo está lançado em uma galáxia de multiversos intermináveis e por isso tenho a sensação que uma pequena gentileza é um ato revolucionário. As pessoas estão tão esvaziadas de sentido e cobertas de razão que um ato espontâneo de afetividade estará preservado em breve no Museu das Expectativas Mortas.

'Para existir com o mínimo de dignidade é preciso que de vez em quando alguém te perceba num café e lhe aponte um sorriso com os olhos.'

'Para existir com o mínimo de dignidade é preciso que de vez em quando alguém te perceba num café e lhe aponte um sorriso com os olhos.'

Coleciono culpas, retórica, teorias não contestadas e um pouco de inteligência deslocada. Vejo todos os dias amigos e desconhecidos adiando projetos coloridos e organizando listas intermináveis de ocupações abstratas. Vou ocupando minha existência com pesos que ganhei na luta do convívio, nas informações que me atravessam violentamente e não tenho chance algumas de retê-las comigo. São tantas inutilidades, discursos e hipocrisias me prendendo as pernas, as idéias, os sentidos, que na maior parte do tempo estou tentando desprender-me desses tentáculos, sobrevivendo à queda.

Nessa vertigem de assaltos ao peito, como resistir a uma saudade indefesa? Um bilhete desavisado com reticências, um amigo fazendo silêncio contigo quando a cabeça grita “don´t forget me”…

Para existir com o mínimo de dignidade é preciso que de vez em quando alguém te perceba num café e lhe aponte um sorriso com os olhos. É extremamente importante que um orgulho seja dobrado pela nossa ausência. Que o outro seja considerado por inteiro em suas múltiplas desordens e que os nossos problemas mantenham os amigos do outro lado da linha.

Está nos livros, nos filmes, nas obras de arte, nos muros, nas igrejas, nos bares, nas latrinas mais sujas que já debrucei sozinho: ser amado é urgente.

O resto é ouro de tolo, já dizia o professor.

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