Atores gays: Um abrir e fechar armário
Heterossexuais aclamados por seus personagens gays e os atores gays escondidos no armário. Continue lendo
por Redação em 13 de março de 2010 às 13:05.
O jornal britânico The Independent sempre faz matérias sobre temas específicos e conflitos dentro do universo LGBT. Dessa vez eles falam sobre os atores heterossexuais e seus personagens gays e vice-versa.
Confira a matéria completa com tradução livre da Redação Dolado.
Nesse exato momento, se você é um ator heterossexual em Hollywood, é ótimo pra ser gay. Nós temos um vencedor do Bafta e indicado ao Oscar Colin Firth como o amargurado professor Inglês no sensível e sensual filme de Tom Ford, adaptado do romance ‘A Single Man‘ de Christopher Isherwood. Em breve veremos Jim Carrey e Ewan McGregor se amando em ‘Eu Te Amo Phillip Morris‘, uma inusitada história real dos escritores de ‘Bad Santa’. E, ainda esse ano, Julianne Moore e Annette Bening serão duas mulheres casadas no extraordinário ‘The Kids Are All Right‘, de Lisa Cholodenko.
Claro que você pode argumentar que não é novidade alguma. Em 1993 Tom Hanks ganhou o Oscar por ‘Filadélfia‘, onde interpreta um advogado gay soropositivo. Mais recentemente, Jake Gyllenhaal e Heath Ledger foram indicados por interpretarem dois cowboys atormentandos pela paixão em ‘O Segredo de Brokeback Mountain‘. E, um ano atrás, Sean Penn faturou o segundo Oscar em sua carreira pela sua atuação de Harvey Milk, o ativista gay que se tornou o primeiro promotor assumidamente gay na Califórnia, no filme ‘Milk, A Voz da Igualdade‘ de Gus Van Sant.
Esses filmes mostram que ser gay é angustiante, e Gleen Ficarra – co-escritor/diretor de ‘Eu Te Amo Phillip Morris’ – questiona: “Quantos filmes você precisa assistir pra ver que a homossexualidade é uma aflição?“. Em ‘Eu Te Amo Phillip Morris’, ser gay é quase um incidente no roteiro. “Eu acho que é um dos poucos filmes que lida com a questão da homossexualidade com naturalidade”, diz John Requa, o outro escritor/diretor do filme. “Ao invés do filme estar centrado na questão gay, isso se torna apenas um detalhe nessa comédia romântica.”
Na verdade, quando o filme estreou no Festival de Cinema de Sundance no ano passado, a Screen International disse que, “De vários formas é tão importante quanto Brokeback Mountain por quebrar barreiras no cinema mainstream.” A história mostra Carrey como Steven Russen, um homem casado não-tão-feliz que sai do armário e abandona a esposa. Vivendo uma vida extravagante na Flórida, ele se vê obrigado a infringir a lei para bancar tudo e acaba na prisão. Lá, ele conhece e se apaixona pelo doce Phillip Morris (McGregor) – e os dois planejam uma vida juntos.
Mesmo assim, McGregor lembra como é difícil para o mercado um filme como esse. Deve ser visto como um filme gay? “Eu lembro no Sundance, quando foi visto pela primeira vez, nós tivemos uma coletiva de imprensa em um bar gay em Sundance. Havia um tanto de questionamento durante a coletiva sobre não ser um filme gay. E eu achei um tanto bizarro – já que estávamos em um bar gay divulgando um filme gay! E as pessoas diziam, ‘Na real não é um filme gay.‘ É um filme gay. Claro que é um filme gay. Mas acho que o foco do filme não é eles serem gays. O foco é a profundidade em Steven Russel ficar com Phillip.”
‘Direito de Amar (A Single Man)’ não lida com o fato de que o protagonista prefere homens do que mulheres. O britânico George Falconer, intepretado por Firth, pode viver na Califórnia, em 1962, quando a homossexualidade era dificilmente abordada (algo que ecoou na recente e controvérsia Proposition 8 que revogou a permissão do casamento homossexual no estado). Mas o filme é sobre a angústia de alguém em lidar com a morte de quem ama. Como Firth contou a um jornal, “Eu poderia dizer que, durante as filmagens, quase esqueci que ‘gay’ era uma das questões do personagem. É sobre solidão. E se você mudar a questão amorosa para uma mulher, poderia ser o mesmo filme.”
Enquanto o filme de Ford é ambientado em um mundo estilizado que as vezes parece um comercial para sua marca, ‘The Kids Are All Right‘ é exatamente o oposto. É um retrato de uma família moderna tumultuada, com base na realidade, lidando com o que acontece quando os filhos das personagens de Moore e Bening decidem procurar o pai-doador-de-sêmen. Como Cholodenko falou recentemente, ela queria trabalhar com o aspecto “emocional e psicológico” em torno do assunto. “Quando eu sentia que estava virando algo mais superficial enquanto eu escrevia, ou politicamente corretamente, eu voltava e começava de novo.”
O trabalho de Cholodenko veio depois da chamada febre do Novo Cinema Gay, que começou de fato com o filme de 1986 do diretor Bill Sherwood, ‘Parting Glaces‘, trazendo Steve Byscemi com um roqueiro gay morrendo de AIDS. Enquanto para ele foi algo desafiador e independente – como “Poison“, de Todd Haynes, “Go Fish“, de Rose Troche, e “My Own Private Idaho“, de Gus Van Sant – o caminho de Cholodenko já é algo visto como um entretimento mais comercial que envolve personagens gays. Não é diferente com “The L Word“, a série de TV – onde trabalhou – sobre um grupo de lésbicas que moram em Los Angeles. Como ela diz, “Parece que há muito mais personagens gays [nos cinemas] bem elaborados, sendo simbólicos ou não.”
Se os filmes de temática gay não precisam mais serem politizados, é porque enfrentou um longo caminho desde os dias do filme “Making Love“, de 1982. Estrelado por Michael Ontkean na pele de um homem casado que enfrenta o seu amor por outro homem (Harry Hamlin), o filme foi considerado o primeiro de Hollywood a tratar a homossexualidade como algo normal. Mesmo assim, Hamlin – que se transformou em sensação ao estrelar a versão original de “Duelo de Titãs” – contou recentemente ao Los Angeles Times, “Minha carreira desacelerou depois disso“.
Agora parece que o problema é praticamente o oposto: os atores são acusados de usarem papéis gays para alavancarem a carreira. “Há muita especulação, ‘Jim interpretou um gay para buscar a consagração?’, disse Ficarra. “Mas se você realmente olhar para o conteúdo, há algo sobre Steven, que vai além do fato de ser homossexual, que é unico como Jim.”
Da mesma forma, Cholodenko defende suas atrizes. “Não acho que Julianne ou Annette se interessaram como uma forma de alavanca. Eu acho que elas viram como, ‘nossa, é um desafio muito interessante em como um ator pode se aprofundar de verdade no universo emocional e psicológico do personagem.’”
No entanto, como Firth já admitiu, Hollywood ainda tem um problema com a homossexualidade. “Podem existir riscos para um ator gay se assumir“, disse Firth. “Me parece que a política em volta disso é muito complexa. Se você é conhecido como um homem heterossexual, interpretando um personagem gay, você é recompensado por isso. Se você é um homem gay e quer interpretar um papel heterossexual, você nem participa da seleção – e o mesmo acontece quando um ator gay quer um personagem gay. Eu acho que isso precisa acabar e me sinto um cumplice no problema. Não quero ser. Eu acho que todos deveríamos ter o direito de interpretar qualquer personagem – mas eu acho que ainda existem barreiras invisíveis que ainda não podemos ultrapassar.”
Esse foi um problema enfrentado por Ficarra e Requa para escolher o elenco de ‘Eu Te Amo Phillip Morris. “As pessoas nos questionam, ‘Por que você não escolheram atores gays para os papéis‘” conta Requa. “Bom, Hollywood não tem nenhum ator gay! Nenhum deles se assume. Com exceção de Ian McKellen, que é muito velho para o papel, é muito raro ver isso. E é um saco pois eles são atores. Se um heterossexual pode interpretar um gay, por que um gay não pode interpretar um hetero? É tão convincente quanto. Mas há essa percepção do mercado de que, de alguma forma, o público não consegue aceitar que ‘tem um gay beijando uma mulher – meu Deus!’ Eu não consigo entender.
Isso é um bom exemplo dos comentários recentes de Rupert Everett, um dos poucos atores assumidamente gays, que poderia ser escolhido para ser Russel ou Morris. “O fato é que você não poderia ser, e ainda não pode, um ator gay de 25 anos tentando fazer carreira na indústria de filmes britânicos ou americanos ou até mesmo em italianos,” desabafou. “Simplesmente não dá certo e em algum momento você vai encontrar uma barreira. Com o tempo você consegue e trabalha durante um período, mas no primeiro deslize eles te cortam definitivamente.”
Mesmo assim, Requa ainda acredita que as coisas estão evoluindo e que um dia Hollywood vai reverter essa homofobia tácita. “Vai acontecer. Vai existir um momento Jackie Robinson [o primeiro jogador de futebol americano afro-descendente] onde um grande ator vai se assumir, e ele vai ser tão bom que ninguém vai ligar.” Até lá, enquanto os personagens gays podem aproveitar o sucesso nos cinemas, os atores gays não podem.





