Mais de 130 gays foram mortos em armadilhas no Iraque

Grupos homofóbicos perseguem quem não segue os mandamentos do Islamismo.

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por Redação em 16 de setembro de 2009 às 08:00 tradução de matéria publicada em 13 de setembro de 2009 pelo Guardian - http://www.guardian.co.uk/. Última alteração em 16 de setembro de 2009 às 02:07.

Sentado no chão, vestindo roupas tradicionais islâmicas e segurando um velho notebook, Abu Hamizi, de 22 anos, fica pelo menos 6 horas por dia na internet buscando salas de bate-papo gays. Ele não está procurando por amigos, mas por vítimas

“É a forma mais fácil de encontrar quem está destruindo o Islã e quem está sujando a reputação que levamos séculos para construir,” disse. Quando ele os encontra, Hamizi marca um encontro para atacá-los e as vezes matá-los.

Hamizi, formado em ciência da computação, faz parte de uma nova onda de violência contra homens gays no Iraque. Formado por extremistas, acredita-se que o grupo de Hamizi e outros semelhantes são os responsáveis pelas mortes de mais de 130 homens gays no Iraque apenas este ano.

Gays assassinados nas ruas do Iraque (Foto: Bilal Hussein/AP)

Gays assassinados nas ruas do Iraque (Foto: Bilal Hussein/AP)

O vice-líder do grupo, com sede em Bagdá, explicou a sua campanha usando de extrema homofobia. “Os animais merecem mais piedade do que as pessoas que praticam tais atos sexuais tão depravados”, disse para o jornal. “Nós fazemos com que eles saibam por que estão sendo capturados e oferecemos a chance de pedir perdão a Deus antes de serem mortos.”

A violência contra os homossexuais no Iraque é um teste essencial da capacidade do governo em proteger as minorias com a ausência dos americanos.

Tobu Dodge, da Universidade de Londres Queen Mary College, acredita que a violência pode ser uma consequência do sucesso do governo de Nouri al-Maliki. “Os grupos de mílicia que protegiam suas comunidades perceberam que esta função é cumprida pela polícia. Então o foco deles mudou da esfera moral e cultural, revertendo para clássicas táticas Islâmicas nos limites da moral,” disse Dodge.

A homossexualidade não era criminalizada durante o governo de Saddam Hussein – aliás nos anos 60 e 70 o Iraque era conhecido por ser relativamente liberal para os gays. A violência contra os gays começou logo após a invasão em 2003. De acordo com Ali Hali, presidente do grupo LGBT do Iraque, e com base em um grupo de direitos humanos de Londres, desde 2004 cerca de 680 gays morreram no Iraque, sendo que pelo menos 70 nos últimos cinco meses. O grupo acredita que as estatísticas possam ser maiores, pois a maioria dos casos envolvendo homens casados não são relatados. Sete vítimas eram mulheres. De acordo com Hali, o Iraque se tornou o “pior lugar na Terra para homossexuais”.

As mortes são brutais, e as vítimas são submetidas a rituais de tortura. O filho de Azhar al-Saeed foi uma delas. “Ele não seguiu a doutrina Islâmica mas era um bom filho,” ela disse. “Três dias depois do sequestro, encontrei um bilhete em minha porta com sangue espalhado e uma mensagem dizendo que era o sangue purificado do meu filho e informando onde eu poderia encontrar o corpo.”

Ela foi com a polícia em busca de vestígios do filho. “Encontramos o corpo com sinais de tortura, seu ânus estava cheio de cola e cortaram seus genitais,” revelou. “Eu vou levar essa imagem comigo até o dia que eu morrer.”

Os policiais entrevistados reveleram que as mortes não estavam focadas nos gays mas há alguns fatos isolados que ainda restam da violência no país de 2005 a 2006. O grupo de Hamizi, porém, se vangloria que duas pessoas são escolhidas por dia para serem “investigadas” em Bagdá. O grupo afirma que movimentos locais estão envolvidos em ataques homofóbicos, escolhendo quem “caçara” as vítimas. Em algumas regiões, uma lista de nomes é enviada a restaurantes e lojas de alimentos.

O colega de quarto de Haydar, de 26 anos, foi sequestreado e morto há três meses em Bagdá. Depois que Haydar entrou em contato com a última pessoa que seu amigo conversou em um bate papo online, ele encontrou uma carta em sua casa o alertando “sobre os perigos em se comportar contra os mandamentos do Islã”. Haydar pretende seguir para Amã, capital da Jordânia. “Eu preciso… fugir antes que tenha o mesmo destino,” disse.

Segundo a HRW (Human Rights Watch), a milicia xiita conhecida como exército Mahdi pode estar entre os militantes envolvidos nos atos violentos, especialmente na região norte de Bagdá conhecida como Sadr City.

Um porta-voz do Ministro do Interior, Abdul-Karim Khalaf, negou as acusações sobre a participação da polícia. “A polícia Iraquiana existe para proteger todos, independente da orientação sexual,” revelou.

Hashim, outra vítima dos extremistas, foi atacado na rua Abu Nawas. Famosa por seus restaurantes e bares, a rua se transformou em um símbolo do relativo progresso de Bagdá. Mas foi onde Hashim foi cercado por quatro homens, teve um dedo cortado e foi espancado brutalmente. Os vândalos deixaram um bilhete avisando que ele tinha um mês para se casar e ter “uma vida normal” ou seria morto.

“Desde esse dia não saio de casa. Estou com muito medo e não tenho dinheiro pra fugir,” disse Hashim.

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