O ponto final aos tratamentos de cura aos homossexuais
Um novo relatório da Associação Americana de Psicologia repudia o tratamento. Continue lendo
por Redação em 06 de agosto de 2009 às 10:51 tradução de matéria publicada em 5 de agosto de 2009 pela AP - Associated Press. Última alteração em 06 de agosto de 2009 às 11:10.
A Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association – APA) declarou na última quarta-feira (5) que os profissionais que cuidam da saúde mental de seus clientes não devem falar a seus clientes homossexuais que é possível se tornar heterossexual através de terapia ou outros tipos de tratamento.
Ao invés disso, a APA insiste para que os terapeutas considerem diversas opções – que podem variar do celibato à mudança de igrejas – para aqueles clientes que a orientação conflitam com a religião.
Através de uma resolução adotada pelo Conselho da APA com uma votação de 125 contra 4, e em um extenso relatório com base em dois anos de estudo, os 150 mil membros da associação se posicionam firmemente contra a “terapia reparativa” que visa mudar a orientação sexual dos clientes.

APA repudia o tratamento para mudar a orientação sexual
Não há evidências sólidas de que essa mudança é possível, diz o relatório, e alguns estudos sugerem que os esforços para realizar essa mudança podem ser prejudiciais, induzindo à depressão e tendências suicidas.
A APA já havia criticado a terapia reparativa, mas uma força-tarefa de seis membros fortaleceu essa posição, analisando 83 estudos sobre a mudança na orientação sexual realizados desde 1960. O relatório do estudo foi endossado pelo Conselho da APA em Toronto, onde acontecerá o encontro anual da associação durante o final de semana.
O relatório traz uma avaliação inédita e detalhada sobre como os terapeutas devem lidar com clientes homossexuais que lutam bravamente para poder continuar fiéis à sua religião que desaprova a homossexualidade.
Judith Glassgold, uma psicóloga de New Jersey, presidiu o grupo de trabalho e revelou que esperava que o documento ajudasse a amenizar o debate entre os religiosos conservadores – que acreditam na possibilidade de mudar a orientação sexual -, e os diversos profissionais de saúde mental que reprovam essa alternativa.
“Ambos os lados têm que estar melhor preparados”, disse Glassgold em uma entrevista. “Os psicoterapeutas religiosos devem abrir os olhos sobre os potenciais pontos positivos em ser gay ou lésbica. Os terapeutas seculares precisam reconhecer que alguns vão escolher pela fé ao invés da sua sexualidade.”
De acordo com o relatório, os terapeutas devem ser “muito prudentes” ao oferecer tratamentos que visam mudar a atração sexual pelo menos sexo ao lidar com clientes homossexuais com religião conservadora.
“Nós temos que desafiar às pessoas a serem criativas”, disse Glassgold.
Ela sugere que os clientes devotos foquem nos pontos gerais de sua crença, como o perdão e a esperança, ao invés de se preocupar com os pontos negativos que condenam a homossexualidade, mantendo parte da sua fé dentro dos seus limites – como por exemplo, adotando o celibato – ou procurar uma crença que aceite homossexuais.
“Não há evidências para dizer que a terapia de mudança funciona, mas essas pessoas vulneráveis são tentadas a experimentá-las, e quando elas não funcionam ficam duplamente apavoradas”, revelou Glassgold. “Você precisa ser honesto com eles e dizer, ‘Mudar a sua orientação sexual é improvável, mas podemos te ajudar a explorar outras opções que você tem.”
A Exodus International, uma das maiores organizações que promove a possibilidade de mudar a orientação sexual, é uma rede de ministérios cuja mensagem central é “Liberdade da homossexualidade através do poder de Jesus Cristo”.
O seu presidente, Alan Chambers, se descreve como alguém que “superou a indesejada atração sexual pelo menos sexo”. Ele e outros evangélicos se encontraram com representantes da APA após a força-tarefa formada em 2007, e expressou sua satisfação com partes do relatório.
“É um passo positivo – simplesmente respeitar a fé de alguém é um enorme salto na direção correta”, disse Chambers. “Mas eu iria mais longe. Não se deve negar a possibilidade que os sentimentos de alguém possam mudar”.
Mark Yarhouse, um psicólogo evangélico da Universidade Regent, elogiou o relatório da APA por estimular uma abordagem criativa para lidar com as crenças dos clientes gays mas – como Chambers – discordou com o ceticismo sobre a mudança da orientação sexual.
Durante o encontro de Toronto da APA, Yarhouse e um colega – o Professor Jones Stanton do Wheaton College -, revelarão descobertas dos seis anos de estudos com 61 pessoas que se submeteram ao tratamento da Exodus. De acordo com o estudo, mais da metade dos indivíduos se converteu à heterossexualidade ou não se identificou mais como homossexuais, enquanto adotaram a castidade.
Para Jones e Yarhouse as suas descobertas provam que a mudança é possível para algumas pessoas e, no geral, as tentativas de mudar não são prejudiciais.
A força-tarefa tomou como ponto de partida a convicção de que a homossexualidade é uma variante normal da sexualidade humana, e não um transtorno, e que no entanto continua estigmatizada de formas que podem ter consequências negativas.
O relatório revela que um grupo de gays interessados em mudar sua orientação sexual tem evoluído ao longo das décadas, e agora é formado essencialmente por homens brancos bem instruídos cuja religião é uma parte importante das suas vidas, seguindo crenças que condenam a homossexualidade.
“A crença religiosa e a psicologia não devem ser vistas como inimigas”, diz o relatório, fortalecendo abordagens “que integrem os conceitos da psicologia religiosa e da psicologia moderna na orientação sexual”.
Perry Halkitis, um psicólogo da Universidade de Nova York , que preside o comitê da APA responsável em lidar com questões sobre gays e lésbicas, elogiou o relatório pelo seu equilíbrio.
“Qualquer pessoa que tome suas decisões com base na boa ciência ficará satisfeita”, disse Halkitis. “Como psicólogo, você tem que lidar com tudo que envolve a pessoa, e para algumas pessoas, a fé é parte importante do que ela é”.
O relatório também aborda os jovens que são submetidos à terapias com o objetivo de mudar a orientação sexual. Segundo o relatório, qualquer abordagem deve ser feita com o objetivo de “maximizar a auto-estima” e só pode acontecer com o consentimento dos jovens.
Wayne Besen, um ativista dos direitos homossexuais, que tem batalhado para acabar com o chamado movimento “ex-gay”, parabenizou o estudo da APA.
“A terapia ex-gay é uma grande farsa que levou à tragédias desnecessárias, e estamos satisfeitos que a APA tenha abordado esta questão psicológica”, disse Besen.
